quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

QUALIDADE DE VIDA E DESEMPENHO FUNCIONAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES PORTADORES DE NEOPLASIAS MALIGNAS SUBMETIDAS AO PROCESSO DE REABILITAÇÃO ONCOFUNCIONAL



QUALIDADE DE VIDA E DESEMPENHO FUNCIONAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES PORTADORES DE NEOPLASIAS MALIGNAS SUBMETIDAS AO PROCESSO DE REABILITAÇÃO ONCOFUNCIONAL


Viviane Lago de Oliveira Silva¹; Minelvina Barroso de Amorim²; Daniel Salgado Xavier³.

1 Acadêmica de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. Bolsista do Programa de Apoio à Iniciação Científica da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas - FCECON; Manaus, Amazonas; lagoliveira@gmail.com
2 Professora preceptora da Faculdade Metropolitana de Manaus – FAMETRO. Manaus, Amazonas; minelfisio@hotmail.com
3 Fisioterapeuta da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas – Orientador. Manaus, Amazonas; xavierdaniel@hotmail.com


Resumo

No Brasil, as estimativas para os anos de 2014 e 2015 apontaram para a ocorrência de aproximadamente 576 mil casos novos de câncer. O presente estudo justificou-se pela escassez literária que embase e norteie as condutas terapêuticas multidisciplinares imprescindíveis, onde a fisioterapia oncofuncional tem por metas a manutenção, o desenvolvimento, a preservação e a melhora da capacidade funcional dos pacientes portadores de neoplasias.  Objetivo: Avaliar a capacidade funcional e qualidade de vida de um grupo de crianças e adolescentes portadores de neoplasias malignas submetidas ao processo de reabilitação oncofuncional e comparar com um grupo controle não submetido à intervenção fisioterapêutica. Metodologia: Trata-se de um estudo clínico, descritivo, observacional, prospectivo, realizado na FCECON, com crianças e adolescentes entre 04 a 18 anos de idade, independente do gênero, da raça, do tipo do câncer, com devida autorização de seus respectivos responsáveis legais, através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Resultados: Notou-se que os pacientes que integraram o grupo G2 submetidos às 15 sessões de fisioterapia oncofuncional apresentaram uma melhor qualidade de vida, caracterizado pelo escore elevado nas escalas funcionais e na escala Estado Geral de Saúde/Qualidade de Vida e escore reduzido nas escalas de sintomas quando comparados ao grupo controle. Além disso, os pacientes do grupo G2 apresentaram melhor capacidade funcional, recebendo classificação de independência na maioria das atividades exercidas. Conclusão: Ficou evidenciado que a fisioterapia oncofuncional contribuiu para promover a melhor da qualidade de vida e consequentemente melhor desempenho funcional nos indivíduos que foram submetidos às intervenções fisioterapêuticas.

Palavras-chave: Fisioterapia; Pediatria; Oncologia.


Introdução

No Brasil, a estimativa para o ano de 2014, que seria válida também para o ano de 2015, assinalou para a ocorrência de aproximadamente 576 mil casos novos de câncer. O câncer é a designação dada a um conjunto de mais de 100 tipos diferentes de doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células anormais, que se caracteriza pela perda do controle da divisão celular e com potencial de invadir outras estruturas orgânicas 1.
Com base em referências dos registros de base populacional, o câncer infanto-juvenil já representa a segunda causa de mortalidade proporcional entre crianças e adolescente de 01 a 19 anos, sendo ultrapassada tão somente pelas mortes relacionadas aos acidentes e à violência no Brasil, pode, portanto, afirmar que o câncer é a primeira causa de mortes por doença, após um ano de idade, até o final da adolescência 2.
Por isso é de grande importância que haja desenvolvimento tecnológico e avanço das pesquisas no campo da saúde, como afirma3, onde essas ações contribuirão tanto para o combate de doenças quanto para o aumento da sobrevida de pacientes com doenças crônicas como o câncer.
            Esses pacientes geralmente apresentam redução da sua Qualidade de Vida (QV) devido aos tratamentos a que são expostos, 4define que a fisioterapia em oncologia é uma especialidade que tem como finalidade preservar, manter, desenvolver e restaurar a integridade cinético-funcional de órgãos e sistemas do paciente, assim como prevenir os distúrbios causados pelo tratamento oncológico.
Diante do exposto, a fisioterapia oncofuncional, é a terapêutica de escolha e complementar quando o aspecto a ser considerado é a melhora na qualidade de vida, onde, segundo5, a fisioterapia oncofuncional apresenta por objetivos fundamentais, a manutenção, o desenvolvimento, a preservação e a melhora da capacidade funcional dos pacientes portadores de neoplasias e o desenvolvimento/manutenção desta habilidade está diretamente relacionada a uma maior independência funcional e, por conseguinte, uma melhor qualidade de vida.
Neste estudo, tivemos como objetivo avaliar e comparar a capacidade funcional e qualidade de vida de um grupo de crianças e adolescentes portadores de neoplasias malignas submetidas ao processo de reabilitação oncofuncional com um grupo controle não submetido à intervenção fisioterapêutica. Como objetivos específicos: Demonstrar que o incremento da capacidade funcional enquanto habilidade motora é imprescindível para uma melhor qualidade de vida em crianças e adolescentes portadores de neoplasias malignas; Avaliar o impacto da presença de neoplasias malignas sobre a qualidade de vida e sobre a capacidade funcional de crianças e adolescentes oncológicos; Inferir dados acerca da perda e/ou redução da capacidade funcional em crianças e adolescentes acometidos por neoplasias malignas; Demonstrar a relevância da reabilitação oncofuncional enquanto componente interdisciplinar imprescindível ao processo de implemento da qualidade de vida e capacidade funcional em crianças e adolescentes portadores de neoplasias malignas.

Metodologia
Tratou-se de um estudo analítico, do tipo ensaio clínico randomizado, a população de estudo escolhida foram crianças e adolescentes entre 04 a 18 anos de idade, independente do gênero, da raça, do tipo do câncer e estadiamento do câncer, foram excluídos deste trabalho crianças e adolescentes que estavam realizando terapias adjuvantes ao tratamento neoplásico como quimioterapia, radioterapia e/ou hormonioterapia por conta dos efeitos colaterais inerentes a estas intervenções, somada a indisposição orgânica e maior suscetibilidade a quadros infecciosos (imunosupressão) e hemorrágicos (plaquetopenia), além daqueles indivíduos submetidos ou necessitando de suporte avançado de vida, internados na unidade de tratamento intensivo.
Satisfeitos com os critérios de inclusão e exclusão, os pacientes selecionados foram distribuídos de forma aleatória em dois grupos, receberam uma numeração e seus nomes foram lacrados e fechados em um papel pardo, os pacientes com a numeração ímpar constituíram o grupo controle G1 – que recebeu a fisioterapia convencional e os que receberam a numeração par o grupo G2 – grupo de estudo que recebeu a intervenção via fisioterapia oncofuncional. Após a randomização, os procedimentos foram realizados, sempre mediante supervisão médica e da equipe da enfermagem. A abordagem consistiu na prestação dos serviços duas vezes ao dia, nos períodos matutinos e vespertinos, com duração de cinquenta (50) minutos, respeitando-se a clínica do paciente, com o total de 15 sessões consecutivas. O estudo foi realizado em vinte (20) crianças ou adolescentes, no qual dez (10) integraram o grupo G1 e dez (10) o grupo G2.
Os responsáveis dos indivíduos deste estudo responderam aos questionários na forma de entrevista, em que foi aplicado o questionário EORTC QLC – C30 (European Organization For Research And Treatment Of Cancer), validado por6, específico para mensuração e quantificação da qualidade de vida em pacientes portadores de câncer. Esse questionário é composto por questões que avaliam a última semana do entrevistado, sendo dividido em três escalas: saúde global, escala funcional e escala de sintomas. A escala funcional, por sua vez, é dividida em mais 5 subescalas (função física, desempenho de papel, função emocional, função cognitiva e função social) e a escala de sintomas, em três subescalas multi-itens (fadiga, náusea e vômitos, dor) e cinco subescalas de item único (dispneia, insônia, perda de apetite, constipação e diarreia), além de um item único relacionado à dificuldade financeira. Para calcular os escores de acordo com o tipo de escala, foram utilizadas as seguintes fórmulas: Escalas funcionais: Escore = 1- [(EB – 1) /variação] x 100; Escalas de sintomas: Escore = [(EB – 1) /variação] x 100; Estado de saúde global: Escore = [(EB – 1) /variação] x 100. As respostas dessas escalas foram transformadas em escore de 0 a 100. Nas escalas funcionais e na escala Estado Geral de Saúde/Qualidade de Vida um escore alto representa um elevado nível de funcionamento ou elevada qualidade de vida. Já nas escalas de sintomas um escore elevado significa um nível elevado de sintomatologia ou efeitos colaterais, ou seja, pior a qualidade de vida7.
Foi aplicado também em forma de entrevista o Índice de Katz, validado por8, para avaliar a capacidade funcional. Em cada questão, o escore variou de zero a um. O valor total foi obtido por meio da soma dos escores de todos os itens. O cálculo foi realizado, conforme a orientação do questionário e, ao final, obteve-se o valor total que caracterizou as participantes nas categorias: Dependente ou Independente. Ao final da aplicação dos questionários, os dados coletados foram tabulados no Microsoft Excel®.
Todos os participantes foram informados quanto às características do estudo e seus responsáveis assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, as crianças com idade superior a dez anos assinaram Termo de Assentimento Livre e Esclarecido, aceitando participar voluntariamente do estudo. Este estudo possui aprovação sob CAAE: 45720015.3.0000.0004.


Resultados e discussão

Os resultados obtidos após a aplicação do questionário EORTC QLC – C30 demonstraram que quando comparados os dois grupos, onde o G1 – grupo controle e o grupo G2 – submetidos à intervenção fisioterapêutica oncofuncional, constatamos que o G2 apresentou escore médio da Escala Saúde Global/Qualidade de Vida superior (90) contra (63,3) do G1 o que significa melhor qualidade de vida para esse grupo com escore elevado.
Nas outras escalas o grupo G2 apresentou em geral melhor escore médio como nas escalas funcionais (76,2), ou seja, elevada qualidade de vida quando relacionada ao G1 66,1 (Figura 1).


Figura 1: Média das Escalas Funcionais do EORTC QLQ- C30
Nota: Função Física (FF), Desempenho de Papel (DP), Função Emocional (FE), Função Cognitiva (FC) e Função Social (FS). Pacientes submetidos à intervenção fisioterapêutica convencional (G1), pacientes submetidos à fisioterapia oncofuncional (G2).



Nas escalas de sintomas o G1 apresentou todos os escores superiores ao G2, o que caracteriza maior quadro de sintomas e consequentemente pior qualidade de vida, como explanam os escores elevados do G1 principalmente em insônia (60), e dificuldades financeiras 76,6 (Figura 2).



Figura 2: Média das Escalas de Sintomas do EORTC QLQ- C30
Nota: Fadiga (FAD), náuseas e vômitos (NAV), dor (Dor), dispnéia (DIS), insônia (INS), perda de apetite (PAP), constipação (CON), diarreia (DIA) e dificuldades financeiras (DIF).


De acordo com a classificação do Índice de Katz pode-se observar que houve predominância do grupo G2 na maioria das atividades exercidas de forma independente, com exceção do item higiene pessoal onde o grupo G1 (70%) apresentou índice pouco superior ao G2 60% (Tabela 1).

Tabela 1 – Distribuição das atividades básicas de vida diária (ABVD) entre o grupo G1 n= 10 e G2 n=10, segundo Índice de Katz.



ABVD
Grupo G1
Grupo G2
Independente
Dependente
Independente
Dependente
n
%
n
%
n
%
n
%
Banho
5
50
5
50
8
80
2
20
Vestir-se
6
60
4
40
7
70
3
30
Higiene Pessoal
7
70
3
30
6
60
4
40
Transferências
10
100
-
-
10
100
-
-
Continência
7
70
3
30
9
90
1
10
Alimentação
6
60
4
40
10
100
-
-










Tendo em vista os resultados positivos alcançados por meio da atuação fisioterapêutica aplicada em um grupo deste estudo e sabendo por meio da literatura9, que o câncer aparece entre as doenças crônicas não transmissíveis como a principal causa de morte e que também leva à perda de qualidade de vida, com altos graus de limitação nas atividades de trabalho e lazer. Compreendemos que o fisioterapeuta é um membro essencial na equipe multidisciplinar. Onde a fisioterapia irá apontar não apenas o estado físico da criança, mas também as questões sociais e emocionais associadas ao diagnóstico de câncer, conforme10 afirma.
Além disso, a atuação da fisioterapia em pacientes oncopediátricos pode ser realizada no pós-operatório imediato, nas complicações decorrentes de um tumor primário, do tratamento quimioterápico e/ou radioterápico ou de suas metástases, desde que haja condições clínicas para tal atuação. Tendo como meta principal evitar a síndrome do imobilismo nesses pacientes, segundo informa11.
No período em que a coleta de dados foi realizada nos deparamos com algumas limitações, pois alguns responsáveis não aceitaram que seus filhos fizessem parte do estudo mesmo sendo esclarecido a importância deste trabalho. Além disso, alguns pacientes foram excluídos do estudo já que receberam alta hospitalar antes de completar o número necessário de sessões de fisioterapia.


Conclusões 

A relevância do presente estudo vai além da escassez literária que embase e norteie as condutas terapêuticas multidisciplinares imprescindíveis, ora ao pronto estabelecimento das crianças e adolescentes portadores de neoplasias malignas, ora na promoção de ações que culminarão em uma melhor qualidade de vida, um maior senso de dignidade humana e a reinserção destes na sociedade, objetivos estes, tão fundamentais e que por vezes são relegados sumariamente ao segundo plano.
Acreditamos que a partir dos resultados demonstrados neste estudo a fisioterapia oncofuncional assuma o papel de uma das protagonistas no processo de melhora da capacidade funcional, conferindo uma maior independência funcional o que refletirá em uma melhora na qualidade de vida, ratificando o papel da reabilitação oncofuncional como um método seguro e eficaz no tratamento de crianças e adolescentes acometidos por câncer.


Agradecimentos

Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas pela oportunidade de realizar esta pesquisa, à Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas, local de realização desta pesquisa, a todos os pacientes desta instituição, a Dra Kátia Torres e Josi Neves por todo apoio.



Referências

1.INCA- Instituto Nacional do Câncer (BRASIL). Estimativa 2014: Incidência de Câncer no Brasil. – Rio de Janeiro: INCA, 2014. 126p.

2. INCA- Instituto Nacional do Câncer (BRASIL). Estimativa 2012: Incidência de Câncer no Brasil. – Rio de Janeiro: INCA, 2012.

3. PEDROZO, W.S.; ARAÚJO, M.B.; STEVANATO, E.S. Atividade física na prevenção e na reabilitação do câncer. Motriz, Rio Claro, v.11 n.3 p.155-160, set./dez. 2005.

4. Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Fisioterapia [homepage da Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Câncer; c1996-2015 [acesso em 19 ago. 2015]. Disponível em: http://www1.inca.gov.br/conteudo_view.asp?ID=682

5. XAVIER, D.S. Fisioterapia oncofuncional para a graduação: O papel da fisioterapia no combate ao câncer. Clube dos autores. 2ed. MS, 2012.

6.  FARIA, O.S. Adaptação transcultural e validação da versão em português de questionário de qualidade de vida para pacientes com câncer em cuidados paliativos no contexto cultural brasileiro. Dissertação apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Ciências. São Paulo, 2013.

7. SANTOS, E. M. M. Câncer colorretal: qualidade de vida em pacientes tratados com intenção curativa. 2003. 136f. Dissertação (Mestrado em Ciências – Área de concentração Oncologia) – Programa de pós-graduação em Ciências, fundação Antonio Prudente, São Paulo.

8. LINO, S.T.; PEREIRA, M.R.S.; CAMACHO, B.A.L.; FILHO, R.T.S.; BUKSMAN, S. Adaptação transcultural da Escala de Independência em Atividades da Vida Diária (Escala de Katz. Cad. Saúde Pública). Rio de Janeiro, 24(1):103-112, jan., 2008.

9. MARQUES, Cristiana. Oncologia: Uma abordagem multidisciplinar. Carpe Diem, 2016.

10. TECKLIN, Jan Stephen. Fisioterapia Pediátrica. 3ª Edição. Porto Alegre: Artmed, 2006.

11. PETRILLI, Antonio Sérgio; CARVALHO, Werther Brunow; LEE, June Ho. Cuidados Intensivos ao Paciente Oncológico Pediátrico. São Paulo: Editora Atheneu, 2004. 

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